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arte conceitual
Escrito em 19 de julho de 2010. Publicado em reflexões sobre arte.Especial Arte Conceitual
Mas afinal de contas o que é Arte Conceitual?
Por Maria de Castro
Muitos artistas tem perguntado ao ArtePrática o que é a Arte Conceitual. Nessa matéria tentamos de uma maneira simples mas rigorosa introduzir o assunto aos nossos leitores.
A Arte Conceitual é, no Brasil, um campo de expressão artística muito pouco compreendido. Por culpa de muitos artistas, jornalistas e críticos de arte que tem tratado a idéia de arte conceitual como se esta fosse a única forma de Arte contemporânea, vários grupos de artistas ligados a outros tipos de expressão tem sentido que a Arte Conceitual é uma área fechada, somente acessível a poucos eleitos. A realidade não se mostra assim.
A arte conceitual nada mais é do que uma das inúmeras formas de expressão artísticas possíveis para o desenvolvimento de um trabalho pelo artista plástico.

Intervenção urbana de José Rezende no Projeto Arte Cidade, São Paulo
As discussões que levaram ao surgimento da Arte Conceitual são muito antigas. Começam no trabalho de Marcel Duchamp e continuaram através da primeira metade do século XX. Na década de 60 através das idéias veiculadas pelo grupo Fluxus a Arte Conceitual torna-se um fenômeno mundial. No Brasil artistas como Artur Barrio, Baravelli, Carlos Fajardo, Cildo Meirelles, José Rezende, Mira Schendel, Tunga e Waltércio Caldas começam a desenvolver um trabalho nessa forma de expressão.
Para esclarecer um pouco mais a situação precisamos antes entender o que o termo Arte Conceitual significa.
Segundo Atkins, o termo Arte Conceitual se popularizou em 1967 depois que a revista americana ArtForum publicou o texto do artista minimalista Sol LeWitt intitulado “Parágrafos sobre a Arte Conceitual”. Nesse artigo o artista organiza as reflexões já existentes na área sobre uma arte que se desenvolve somente no campo das idéias, abandonando um pouco a materialidade da obra de arte.

Ponta Cabeça, instalação de Tunga, 1994/97
Nessa forma de expressão artística as idéias, reflexões e pensamentos do artista seriam mais importantes do que o objeto de arte em si. Como exemplo podemos dizer que na Arte Conceitual uma tela completamente coberta de tinta vermelha pode não ser mais entendida como uma pintura de cor única mas sim como um suporte das reflexões do artista: para ele talvez pintar a tela vermelha seja uma forma de refletir sobre a angústia e a violência no mundo.
Através desse exemplo podemos entender que a obra de arte conceitual exibida em uma exposição nada mais é do que um documento, um relato das reflexões do artista. Esse documento não usa a linguagem escrita, usa apenas a linguagem visual própria do artista plástico. Ao observador cabe tentar entender ou não essa reflexões.

Letras, obra de Mira Schendel e instalação de Cildo Meirelles
denominada Desvio para o Vermelho
É interessante notar que na Arte Conceitual o público é obrigado a deixar de ser apenas um observador passivo pois o entendimento da obra de arte não é mais direto. O público também é obrigado a refletir e sair da confortável situação de saber, por antecipação, avaliar se uma obra de arte é “ruim” ou “boa”. Não é mais Possível ir a uma exposição e dizer “essa paisagem está bem composta, a pintura é de qualidade”.
Questões clássicas das artes plásticas como a composição, estudo de cor e a uso da luz podem não ter sentido nenhum na arte conceitual.
Bem, se o público é chamado a ter o trabalho de pensar sobre a obra de arte para aceita-la e entende-la, o trabalho do artista também não é menos difícil.

Objeto Preenchido de Waltércio Caldas
Pensar e refletir sobre a realidade de maneira sofisticada exige do artista uma referência que muitas vezes ele não tem.
Da mesma maneira como um pintor figurativo necessita estudar profundamente a sua técnica e forma de expressão para que possa fazer, por exemplo, um retrato de qualidade o artista conceitual necessita ter um profundo conhecimento de filosofia, história, cultura e informação sobre o mundo atual e artistas contemporâneos para que possa criar “reflexões” visuais consistentes. Esse esforço é fundamental para o artista interessado na arte conceitual: não podemos esquecer que é muito comum encontrarmos artistas que se dizem conceituais mas que são incapazes de discorrer poucas linhas sobre as reflexões contidas em seu trabalho. Essa situação só leva ao descrédito de sua produção e a de toda uma área artística. É devido a essa necessidade de estudo que a maioria dos artistas conceituais vem de uma formação universitária. Muitas vezes, compelidos pela necessidade de estudo, esses artistas acabam produzindo pesquisas de mestrado e doutorado em artes.

A Janela e o Olhar, video arte de Ricardo Hage
Atualmente os artistas conceituais produzem através de várias formas de expressão artísticas: video arte, fotografia, instalação, performance, internet art e Land Art. Cada uma dessas formas de expressão leva o artista a novos desafios e muitas vezes a uma volta para as formas de expressão tradicionais das artes, como a pintura, a gravura e a escultura. Esse movimento de Inter-relação entre tradições artísticas tradicionais e contemporâneas tem muitas vezes sido chamado de Neo-Conceitualismo.
Talvez o Neo-Conceitualismo nada mais seja do que a superação das pré-concepções que tanto tem atrapalhado a livre expressão do artista plástico na atualidade, possibilitando que ele possa enfim produzir arte sem ser rotulado como acadêmico ou contemporâneo. Talvez o Neo-Conceitualismo permita que o artista seja simplesmente um artista.
10 aspectos da arte contemporânea
Escrito em 17 de julho de 2010. Publicado em reflexões sobre arte.10 aspectos da arte contemporânea
Cacilda Teixeira da Costa
especial para a Folha de S.Paulo
Em 1910, o russo Wassily Kandinsky pintou as primeiras aquarelas com signos e elementos gráficos que apenas sugeriam modelos figurativos, uma nova etapa no processo de desmanche da figura, que se iniciara com Pablo Picasso e Georges Braque, na criação do cubismo, por volta de 1907. Assim, a abstração, uma representação não-figurativa —que não apresenta figuras reconhecíveis de imediato— tornou-se uma das questões essenciais da arte no século 20. Movimento dominante na década de 1950, a abstração pode ser conhecida também em livros como “Abstracionismo Geométrico e Informal”, de Fernando Cocchiarale e Anna Bella Geiger (Funarte, 308 págs., esgotado).
A “arte concreta”, expressão cunhada pelo holandês Theo van Doesburg em 1918, refere-se à pintura feita com linhas e ângulos retos, usando as três cores primárias (vermelho, amarelo e azul), além de três não-cores (preto, branco e cinza). No Brasil, o movimento ganhou densidade e especificidade própria, sobretudo no Rio e em São Paulo, onde se formaram, respectivamente, os grupos Frente e Ruptura. Waldemar Cordeiro, artista, crítico e teórico, liderou um grupo com o objetivo de integrar a arte a aspectos sociais como o desenho industrial, a public
idade, o paisagismo e o urbanismo. Para saber mais, consulte o site do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br) e o livro de Helouise Costa “Waldemar Cordeiro e a Fotografia” (Cosac & Naify, 78 págs., R$ 37).
O grupo Neoconcreto teve origem no Rio de Janeiro e teve curta duração, de 1959 a 1963. Ele surgiu como conseqüência de uma divergência entre concretistas do Rio e de São Paulo. Em 1959, Ferreira Gullar publicou um manifesto onde as diferenças entre os grupos são explicitadas, e a ruptura se consolidou, gerando um movimento brasileiro de alcance internacional. Entre os artistas mais conhecidos estão Hélio Oiticica e Lygia Clark, além do próprio Gullar. Três excelentes introduções são “Etapas da Arte Contemporânea” (Revan, 304 págs., R$ 48), de Gullar, “Neoconcretismo” (Cosac & Naify, 110 págs., R$ 59,50), de Ronaldo Brito, e “Hélio Oiticica Qual É o Parangolé?” (Rocco, 144 págs., R$ 24,50), de Waly Salomão.
A aparição da pop art (ou novas figurações), na Nova York do final dos anos 50, foi surpreendente. Longe de ser uma representação realista dos objetos, ela enfocava o imaginário popular no cotidiano da classe média urbana e mostrava a interação do homem com a sociedade. Por isso, tomava temas de revistas em quadrinhos, bandeiras, embalagens de produtos, itens de uso cotidiano e fotografias. No Brasil, interagiu com a política e teve em Wesley Duke Lee, Antonio Dias, Nelson Leirner, Rubens Gerchman e Carlos Vergara seus expoentes. O site da Tate Gallery (www.tate.org.uk) traz bons exemplos internacionais.
A arte conceitual trabalha os estratos mais profundos do conhecimento, até então apenas acessíveis ao pensamento. Nascida no final dos anos 1960, ela rejeita todos os códigos anteriores. No Brasil, o movimento conceitual coincidiu com a ditadura militar (1964-1985), e a contingência lhe deu um sentido diferente da atitude auto-referencial, comum nos outros países. Um dos artistas brasileiros mais ligados ao conceitual é Cildo Meireles, cujo trabalho foi estudado pelo crítico e curador americano Dan Cameron, em livro que leva o nome do artista (Cosac & Naify, 160 págs., esgotado). “Poéticas do Processo: Arte Conceitual no Museu” (MAC-USP/Iluminuras, 197 págs., R$ 33,60), de Cristina Freire, traz visões mais gerais do movimento.
A presença do objeto na arte começa nas “assemblages” cubistas de Picasso, nas invenções de Marcel Duchamp e nos “objets trouvés” (objetos encontrados) surrealistas. Em 1913, Duchamp instalou uma roda de bicicleta sobre uma banqueta de cozinha, abrindo a rota para o desenvolvimento dessa nova categoria das artes plásticas. Hoje em dia, os “ready-mades” —obras que se utilizam de objetos prontos— já se tornaram clássicos na arte contemporânea. Por aqui, a essas experiências começaram a ser realizadas somente nos anos 60, com os neoconcretos e neofigurativos.
As instalações se caracterizam por tensões que se estabelecem entre as diversas peças que as compõem e pela relação entre estas e as características do lugar onde se inserem. Uma única instalação pode incluir performance, objeto e vídeo, estabelecendo uma interação entre eles. O deslocamento do observador nesse espaço denso é necessário para o contato com a obra, e é assim que a noção de um espaço que exige um tempo passa a ser também material da arte. Para um passeio virtual, visite o site do Museu de Arte Contemporânea (www.mac.usp.br).
Na forma como o compreendemos hoje, o “happening” surgiu em Nova York na década de 1960, em um momento em que os artistas tentavam romper as fronteiras entre a arte e a vida. Sua criação deve-se inicialmente a Allan Kaprow, que realizou a maioria de suas ações procurando, a partir de uma combinação entre “assemblages”, ambientes e a introdução de outros elementos inesperados, criar impacto e levar as pessoas a tomar consciência de seu espaço, de seu corpo e de sua realidade. Os primeiros “happenings” brasileiros foram realizados por artistas ligados ao pop, como o pioneiro “O Grande Espetáculo das Artes”, de Wesley Duke Lee, em 1963.
Da integração entre o “happening” e a arte conceitual, nasceu na década de 1970 a performance, que se pode realizar com gestos intimistas ou numa grande apresentação de cunho teatral. Sua duração pode variar de alguns minutos a várias horas, acontecer apenas uma vez ou repetir-se em inúmeras ocasiões, realizando-se com ou sem um roteiro, improvisada na hora ou ensaiada durante meses. O precursor das performances no Brasil foi Flávio de Carvalho, que, em 1931, realizou sua “Experiência Número 2″, caminhando em meio a uma procissão de Corpus Christi, em sentido contrário ao do cortejo e vestindo um boné. Sobre o artista, ver “Flávio de Carvalho” de Luiz Camillo Osório (Cosac & Naify, 120 págs., R$ 59,50).
De difícil veiculação pela TV comercial, a videoarte tem sido divulgada pelo circuito tradicional das galerias e museus. Além dos pioneiros, Wolf Vostell e Nam June Paik, destacaram-se inicialmente as pesquisas de Peter Campus, John Sanborn, Gary Hill e Bill Viola, que tem um bom site (www.billviola.com). No Brasil, as primeiras experiências foram realizadas nos anos 1970 e apresentadas por artistas como Anabela Geiger, Sonia Andrade e José Roberto Aguilar.
Fonte:www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse

